Vantagens da Solidão (por Raquel Rodrigues)


Sempre ouvir dizer que somos seres sociais. "Você precisa conviver com mais pessoas", ou – a minha preferida – "uma andorinha só não faz verão", são frases que sempre ouvi. Sempre que eu argumentei "prefiro estar sozinha", ouvi alguém me dizer algo próximo a isto. Mas a vida ensina mais do que qualquer conselho. E eis que eu aprendi da melhor maneira que se pode aprender: com a experiência.
Já me senti sozinha diversas vezes. Quando quebrei o pé, e não pude contar com ninguém para me ajudar a tomar um banho. Quando o carro bateu e ninguém parou para me perguntar se estava tudo bem. Quando fui reprovada pela enésima vez no teste que queria passar. Quando minha avó faleceu e ninguém entendia por que eu me sentia tão leve – afinal de contas, ela viveu sete anos presa a uma cadeira de rodas. Quando me disseram "eu sinto muito" pela morte do meu pai, enquanto o que eu sentia era uma paz imensa, por que sabia que ele tinha partido em paz.
Diferente desse sentimento, a solidão genuína acontece quando se tem a consciência de que não há ninguém ao seu lado. E essa consciência, apesar de parecer assustadora, pode ser – foi para mim – libertadora. Quando tive essa consciência, de que estava sozinha, percebi que tinha que cuidar melhor de mim. Até então, achava que, quando a saúde me faltasse, teria alguém para me acudir. Doce engano: ninguém conhece meu corpo melhor do que eu. Eu só preciso me dedicar a escutá-lo. E foi assim que, aos poucos, deixei de cuidar só da saúde do corpo, e passei a olhar também para meu espírito.
Vou explicar melhor, por que imagino que ninguém consiga seguir minha linha de raciocínio tão rapidamente quanto eu. Esse aprendizado começou há alguns anos. Pouco antes do falecimento de meu pai. Alguns meses antes, eu recebi um telefonema de minha irmã, com tom preocupado, dizendo que ele estava no hospital, e que ela achava que não sairia de lá. Eu estava numa situação delicada, me desligando de um período marcante da minha vida, mas era meu pai. Fui vê-lo. E, no CTI, vi que ele estava bem – mas não tão bem quanto eu me lembrava.
Meu pai sempre foi muito ativo. Fisicamente e mentalmente ativo. Sempre se exercitava em longas caminhadas sem rumo, sempre lia – muito, uma relação quase visceral com livros, por que achei farelo de comida em alguns dos livros que ele deixou. E, ao ver meu pai tão debilitado, sem conseguir ler um livro, sem conseguir ouvir à CBN (ele sempre disse que era o melhor noticiário no rádio), senti que precisava deixa-lo seguir adiante.
Meses antes desse episódio, comecei a ler sobre o espiritismo sob a influência de uma amiga e colega de trabalho. Talvez ela não saiba disso, mas saber que aquela pessoa, que lidava com tantos problemas alheios com uma suavidade tão contagiante, era espírita, me fez pensar na minha religiosidade. Iolanda era o nome de uma canção do Chico Buarque, e o nome de um anjo na minha vida. Só por isto.
Voltando à nossa timeline (vou usar alguns estrangeirismos neste blog, melhor se acostumarem), quando vi meu pai tão debilitado, fisicamente frágil, e aparentemente deprimido por isto, achei que era melhor deixa-lo seguir adiante. E fiz isso em voz alta. Pedi a Deus que o levasse embora, em paz, por que ele não estava vivendo plenamente. Era outubro de 2011. E eu me arrependi disso no minuto em que falei.
Poucos dias depois, a vida me levou para longe, outro estado, outra empresa, outra cultura. Mas eu sempre pensava naqueles segundos de desabafo que me fizeram sentir como se eu fosse a maior egoísta vivente. O mês de dezembro chegou, e com ele a oportunidade de (talvez) encerrar o que tinha deixado em aberto em Curitiba, onde morei por três anos. Trouxe também uma noite de Natal em família. Na casa de minha irmã. Com meu pai, minha irmã, meu cunhado, e a pessoa mais especial que eu conheci nessa vida até aquele dia: minha sobrinha.
Na ceia de Natal, servida num horário conveniente para uma criança de dois anos e meio de idade, fizemos nossos agradecimentos. Eu agradeci ao ano que tinha tido, e por minha saúde (física, vale lembrar), minha irmã agradeceu pelo filho, João, nascido em março daquele ano. Meu cunhado agradeceu por tudo que viveu naquele ano. E minha sobrinha, com a inocência revolucionária inerente às crianças, agradeceu pela saúde do Vovô. E nem ela, nem ninguém, vai conseguir entender o que essa prece causou em mim. Eu, que alguns meses antes, tinha pedido a Deus que "por favor", o levasse dessa vida, ouvi aquele sorriso maroto e tão envolvente dizer que pedia pela saúde dele.
Minha cabeça entrou em pane. Sabe quando um programa simplesmente para de funcionar, sem nenhum motivo aparente? Foi o que aconteceu comigo. Fiquei tão encabulada pelo que senti, que não tive coragem de passar a noite de Ano Novo com ele. Não iria conseguir fazer nenhum plano para 2012.
E não fiz. Passei minha noite de Ano Novo como se fosse qualquer outra. Ouvi todo mundo dizer o que pretendia para 2012, os projetos pessoais e metas, e sonhos e desejos. E eu com uma culpa que ocupava todo meu cérebro emocional, e deixava meu cérebro racional funcionando no automático. As ações necessárias para me manter viva estavam ali – comer, dormir, conversar, beber – mas eu não sei dizer nada que tenha sentido entre esta noite de Natal e um episódio que vou narrar mais a frente.
Acontece que meu pai foi novamente internado em fevereiro daquele ano, e eu, com toda a dificuldade que tinha para chegar à Belo Horizonte, corri contra o tempo – queria pedir desculpas a ele, e precisava ver como estava minha irmã. Com minha distância e a saúde dele tão frágil, ela provavelmente precisava de mim.
Saí com destino a Belo Horizonte. Táxi, balsa, táxi de novo, aeroporto, companhia aérea superlotada, uma correria que só foi aliviada pela cerveja que tomei no aeroporto. E, no caminho, no meio da Baia de Todos os Santos, uma baleia jubarte, que só reconheci pelo abdômen listrado, morta provavelmente pela hélice de algum navio. Aquilo me machucou mais do que uma facada.
Cheguei em Belo Horizonte depois de uma odisseia, com um cansaço físico e um esgotamento mental que nunca tinha sentido antes. Mas estufei o peito e fui adiante, como um trem desgovernado – minha família me mantinha nos trilhos, mas se dependesse só de mim eu teria desabado. (Depois de escrever isso, sinto que não saiu como eu esperava. O mais correto seria dizer que "me mantive nos trilhos por que minha família exigia que isso acontecesse"). No hospital, entrei com a ajuda de um primo que trabalhava lá. E vi a cena mais assustadora que imaginei nessa vida.
O leito no CTI era pequeno para tanto tubo. E meu pai estava frio, inerte, com um ruído insuportável e repetitivo dos aparelhos ligados a ele. Entrei e fiquei por dois minutos. O suficiente para dizer a ele "estou aqui, e vou ficar enquanto você precisar". Saí com o peito doendo, e encontrei meu primo do lado de fora, e desabafei: "Não queria que ele vivesse assim. Não deixa minha irmã saber que eu estou assim."
Sim, foi isso que eu disse. E vi a primeira pá de terra cair sobre o caixão dele dois dias depois, depois de ter escolhido as roupas e visto o corpo dele no necrotério do hospital. Queria viver tudo que me ligasse aquele momento, para não esquecer que ele tinha falecido.
Aquele turbilhão passou rápido, mais rápido do que eu pensei. Alguns dias depois estava de volta ao trabalho, mas não era eu mesma. Tinha ficado mais dura, especialmente comigo. E o que até então era um trabalho mal conduzido por uma gerente que não podia ficar no local da obra se tornou minha cruzada.
Eu participava de um programa de resgate de fauna e remoção de vegetação em uma obra na Mata Atlântica. Deveria apenas fiscalizar, só isso. Mas aquilo se tornou minha bandeira, meu lema, e de repente, qualquer animal que tivesse sido morto pelas máquinas encarregadas pela remoção de vegetação era um parente meu que merecia justiça. Fiz isso com carcará, com sapo, com tartaruga, com cobra, com lagartos. Mais tarde, comecei a defender com unhas e dentes a equipe de resgate de fauna: eles salvavam tantos animais, mereciam ser defendidos, era minha lógica. Essa ativista ambiental cresceu em mim, e ocupou todo meu cérebro pensante – até que quebrei o pé no banheiro do hotel onde morava.
Aquilo foi um balde d'água fria em diversos planos: o ativismo ambientalista, a possível carreira como médica veterinária (ainda não descartei totalmente esse plano), a carteira de motorista que até então não tinha conseguido obter, mas, principalmente, a liberdade de andar sem rumo como meu pai fazia. Aquela pujança (termo usado pela minha terapeuta semanas depois), que me fez chegar onde eu cheguei, foi abalada por um tombo. E a solidão apareceu como a bruxa má aparece nos filmes infantis: para testar meus limites.
Dois meses numa cama de hotel, sem contato com minha família, sem poder trabalhar, sem poder defender a equipe que fazia tanto por meu ideal em campo, sem poder fazer nada do que fazia antes. Tudo bem, Deus colocou anjos em meu caminho, e eles fizeram tudo parecer mais fácil. Dona Rita e suas refeições tão cuidadosas e elaboradas, com gosto de mãe, Rafael e o contato com um mundo real e cheio de possibilidades. E todos os funcionários do hotel perguntando como eu estava, se precisava de alguma coisa, se queria algo diferente.
Eu queria. Queria voltar no tempo e não dizer o que tinha dito a Deus sobre o meu pai. Queria voltar no tempo e passar a última noite de Ano Novo com ele. Na minha cabeça, ou naquilo que parecia ser uma, a culpa pela morte dele era minha.
E minha "revelação" – sim, foi uma revelação, apesar de parecer uma crise de pânico – foi a caminho de uma das consultas com o ortopedista. Fui questionada sobre um documento que não consegui entregar. E o coração parecia que ia explodir. Um aperto no peito que tirava o fôlego, e me deixou em pânico – meu pai tinha morrido assim, num infarto, e eu estava morrendo também. Depois de algumas horas no pronto-socorro, descobri que era realmente uma crise de pânico. Bom, tinha um diagnóstico. E um problema enorme nas mãos. Como tratar uma crise de pânico? Terapia? Psiquiatra? Psicólogo? Aromaterapia, florais? Outro turbilhão. O médico que me atendeu naquele hospital não imagina o que me causou quando disse "o que eu te prescrevi foi um ansiolítico". Quem dera ele tivesse dito "te prescrevi sódio pentotal". Uma injeção letal faria efeito melhor do que aquilo.
Fiquei por dois dias fechada no quarto do hotel. Só saí pra comer por que o corpo exigia. Voltei ao canteiro dois dias depois, e me lembrei com dor daquilo que deveria ser uma anedota: a amiga de uma colega de trabalho que era psiquiatra. Quando vi minha amiga pela primeira vez depois de tudo aquilo, não tive força pra falar. Sussurrei para Romilda "você pode me indicar um psiquiatra?". Romilda me ajudou prontamente, e naquela mesma semana eu comecei minha jornada para a solidão. Sim, por que reconhecer a nossa solidão é o primeiro passo para a liberdade. Para a salvação. Para a sanidade mental, no meu caso.
Não acaba aqui. Quem me dera. A intenção deste texto é tornar público o que, até hoje, era só meu. Quem sabe assim eu consigo realmente desabafar. Pessoas fechadas como eu precisam do anonimato para se sentirem livres. Eis o meu anonimato. Um blog.

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