Sou a "filha do coração"

Esta história é insana. É daquelas que nos fazem pensar que estamos em um multiverso onde tudo é possível. Ou para quem acha que está "descendo pelo buraco do  coelho de Alice", também é uma boa analogia.

Descobri que sou adotada. Como? Outra história que parece mentira. 

Antes de contar essas duas passagens da minha vida, preciso dizer uma coisa: está é a minha história. Não ache que usei um tom agressivo, caro leitor. Apenas quero deixar claro que isso que você vai ler aqui realmente aconteceu, e aconteceu comigo. Não tenho a intenção de ofender ninguém com este texto, apenas preciso falar sobre este assunto, sob meu ponto de vista.

Até que soubesse da adoção, muita coisa não se encaixava na minha história. Muita ponta solta, sabe? Por exemplo, nasci numa cidade que até então parecia fora da rota. Meus pais moravam em Santo André, estado de São Paulo; minha avó materna em Belo Horizonte, estado de Minas Gerais. E eu nasci em Londrina, estado do Paraná, cidade onde morava minha avó paterna. Estranho? Muito, se levarmos em consideração a época em que nasci, e um comportamento natural entre mulheres desde sempre: na década de 1970, os partos aconteciam próximo da casa da avó materna, ou com a presença dela na cidade onde a mãe morava. A explicação que eu tinha para este local de nascimento tão "fora da curva" também não era muito fácil de aceitar, mas era a que eu consegui: minha avó materna estava com muitos problemas em casa, com o falecimento recente do meu avô. Doce inocência. 

Outra coisa que era difícil de engolir é motivo para um texto à parte: meus pais me tratavam de maneira diferente da minha irmã. Ela foi negligenciada em muita coisa, e eu privilegiada. Ela cresceu sem se sentir culpada por tudo, e eu estava no extremo oposto. Ela tinha detalhes da história do nascimento dela, eu ouvia que tudo tinha corrido bem, que não tinha nada para contar. Eu fui um bebê saudável, ela teve muitos problemas de saúde quando nasceu (comentário de uma psicóloga que também não sabia da adoção: "para onde foi toda essa pujança que te caracteriza? Para onde foi a matéria prima de toda a saúde do bebê que você foi?"). Como eu disse, motivos para um texto à parte.

Antes de continuar, um comentário importante: quando menciono os laços de família (pai, mãe, irmã, avó materna...), estou me referindo à família onde cresci, aos pais que me criaram. 

Pois bem, sempre tive muito atrito com minha mãe. Mágoa demais, muito rancor, muita emoção complicada de nomear, porque eu realmente não conseguia entender o que era tudo aquilo. Por fora, concordava com tudo e acatava as decisões dela, mas odiava casa uma delas, e me odiava casa dia mais porque aceitei aquilo sem brigar. E me e sentia péssima pelas poucas situações em que insisti em fazer o que queria, desde a roupa para uma festa até a decisão de seguir a carreira que ela não aprovava. A confusão que eu sentia, que eu não sabia explicar, virava ansiedade, e a ansiedade virava fome: sempre fui obesa. Até a cirugia bariátrica, só vi minhas roupas aumentarem de tamanho. 

Passei por terapia, mas não surtia efeito positivo, porque não abordava o tema que era pano de fundo para meus problemas - nem sabia dessa história. Até os quase 42 anos, achava que tinha nascido com problemas psicológicos. Achava que tinha saúde mental frágil, ou melhor, muito debilitada. E, faltando 47 dias para completar 42 anos, dia 01/05/2018, 10:00 da manhã, ouvi da minha mãe a informação que revirou meu mundo de ponta cabeça, do avesso, e que tirou tudo do lugar: sou filha da irmã do meu pai. 

A notícia era tão absurdamente insana que achei que era mentira, mais uma manobra de manipulação da minha mãe. Eu, que já estava descendo o poço, numa crise financeira e profissional sem precedentes na minha história, correndo para pagar contas que eu não poderia ter assumido, arriscando minha vida todos os dias em um trabalho difícil, fui ajudada por uma perfuratriz a ir mais fundo. 

Era terça feira, um feriado, e eu estava saindo para trabalhar mais tarde. Ela me acordou enquanto eu tomava meu café da manhã, e começou a me contar uma história que eu já tinha ouvido antes, sobre os problemas de família que minha (até então) tia tinha causado 42 anos antes. A novidade nessa história era  o filho que minha tia tinha tido, que não podia criar, e a decisão que ela, minha mãe, teve. E eu, sem acreditar que aquilo tudo era verdade, perguntei a minha mãe porque ela me contou aquilo. A resposta: "acho que isso vai resolver nosso conflito". 

Era tão insano que eu não acreditei. Achei que ela estava manipulando, mas não conseguia entender o objetivo da manobra. Contei para o meu namorado, contei para minha irmã. E nós duas entendemos que era manipulação, mas ela foi atrás da verdade. 

Nossa fonte de informação eram os irmãos da minha mãe que conviveram com ela na época do meu nascimento. Três deles estavam vivos, e dois disseram que não sabiam daquilo. A confirmação veio uma semana depois. 

Não vou detalhar esse trecho da história. Apenas digo o que senti quando ouvi a irmã da minha mãe confirmar tudo: o mundo desabou. Estava sozinha num cômodo no apartamento do meu namorado, e senti o chão sumir, as paredes caírem. A única coisa que achei para agarrar foi a moldura da porta, e ela também caía na minha frente. 

Depois deste dia, desci mais um pouco no poço. Algumas pessoas ficaram sabendo, e os poucos com quem eu conversei disseram várias frases de ânimo nos seus discursos motivacionais, mas ninguém entendia o que eu sentia. Ninguém conseguia entender a dor que surgiu depois de tantos anos. Ninguém entendia quão caótico se tornou meu mundo depois de ver a história de uma vida inteira desaparecer. Diferente dos desenhos animados, em que a borracha vai apagando e mostrando o papel em branco, cada pedacinho da minha história que vinha à memória desaparecia e mostrava um buraco negro. Esta é a única analogia que consigo fazer: um buraco negro surgiu na minha vida, e sugou para dentro dele tudo, até a luz. O que ficou era tão assustador, tão solitário e escuro e amedrontador que me fez buscar anestésico nos vícios que eu tinha: doces, bebidas, cigarro. 

Até hoje, mesmo depois de muita terapia, e ainda tentando subir lentamente do fundo do poço, a lembrança daquele momento é viva. Enquanto escrevia este texto, senti novamente o mundo desabar.

Ainda não sei o que sinto sobre isso. Tenho extremos de gratidão e mágoa gigantescas, adoração e ódio imensos de todos os que sabiam disso e me mantiveram no escuro. Ainda tento reler minha história. Cada lembrança é colocada neste novo contexto, é revista e reanalisada, e tento me policiar para não ficar presa em uma casa cheia de rascunhos, como aqueles acumuladores que vejo no Discovery Channel, longe de tudo e de todos por que se apegaram ao que é inútil.

A única certeza que tenho é a de que a dor que eu senti uma vida inteira tem uma explicação. Sou ciente disso, apesar de nem sempre ter consciência da grandeza deste fato.

Este texto foi mais uma tentativa de achar meu caminho para fora deste buraco negro. Comente, se quiser, caro leitor. Mas não espere que eu responda. Não sou a primeira adoção à brasileira, e não serei a última. Não tenho a menor ideia do estrago que esta decisão causou em minha vida. E me esforço diariamente para não ficar pensando em como poderia ter sido.

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